Pesquisa de professora da Unilab enfoca processo de mediação escolar

Sinara

Professora Sinara Mota. Foto: acervo pessoal.

Professora do Instituto de Ciências Exatas e da Natureza (Icen) da Unilab, pedagoga e doutora em Educação Brasileira, Sinara Mota coordena o projeto de pesquisa “A avaliação da mediação de conflitos escolares como estratégia de prevenção da violência na escola” em duas instituições públicas municipais nas cidades de Acarape e Redenção, na região do Maciço de Baturité, vinculado ao Pibic/Proppg/Unilab e PIBEAC/Proex/Unilab, com a participação de bolsistas e das professoras do Icen, Ana Paula Caiado, Elisangela André e Jacqueline Freire.

Confira matéria sobre o projeto de pesquisa, adaptada do site Esticadores de Horizontes.

Para além dos muros da escola

“Meu padrasto começou a brigar com meu irmão porque ele chegou bêbado em casa. Falei que não era assim, que ele iria parar, ele ia ficar mais revoltado por levar umas lapadas [pancadas]. Então, eu falei: você não bebe? Você precisa dar exemplo”.

Este relato foi dado por um jovem que viveu o processo de Mediação Escolar aplicado em uma escola da rede pública municipal de Fortaleza. A pesquisa foi conduzida pela professora adjunta da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), em Redenção [Estado do Ceará], Sinara Mota Neves de Almeida, que, nesta entrevista ao ‘Esticadores de Horizontes’, fala sobre os resultados e percepções do estudo que realiza sobre a Mediação Escolar em escolas públicas.

“Antes da implantação da mediação de conflitos escolares, era possível observar que a gestão de conflitos centrava-se no modelo ‘o diretor resolve tudo’ e ‘o professor sabe tudo’. Por isso, as decisões sobre questões administrativas, de relacionamentos e disciplinares eram inquestionáveis, e muitos dos conflitos ficavam, na realidade, sem solução. A dependência da decisão do diretor possibilitava um quadro de tensão ainda maior, pois, na maioria das vezes, não proporcionava aos envolvidos uma tomada de consciência e responsabilidade sobre os problemas”, observa Sinara.

A eficácia do diálogo como contraponto à violência

Em relação às constatações obtidas a partir das pesquisas que conduziu, em um primeiro momento, afirma a professora, é importante constatar o clima de violência física, mas, principalmente, psicológica, verificado nas escolas pesquisados.

“Observamos que a maioria dos conflitos tem início na hora dos intervalos e recreio. Diversos foram os comportamentos agressivos observados: I) agressões verbais: xingar, ameaçar; II) agressões físicas: bater, empurrar, segurar pela camisa, morder, ‘enforcar’, chutar; e III) agressões psicológicas: humilhar, provocar e apelidar”.

“Em conversa com os alunos, percebeu-se que, na maioria das opiniões, os palavrões não são considerados violência verbal. As expressões chulas fazem parte do seu dia a dia e são exprimidas com naturalidade diante de uma irritação ou conversas informais. Já os professores, contudo, são unânimes em considerarem o ‘palavrão’ como um desrespeito, embora não seja uma violência maior: desautoriza o professor e contribui para outras ações de violência escolar”, destaca a pesquisadora.

Provocações e humilhações referentes às inaptidões físicas dos colegas foram, segundo Sinara, as agressões mais usuais observadas na pesquisa. Este caso remete-nos à hegemonia dos habilidosos, evidenciada diariamente no recreio da escola: uma criança que gosta de futebol e não demonstra destreza, automaticamente é excluída do jogo. Portanto, as características físicas – raça, gênero, massa corporal – são alvos de provocação, daí os apelidos depreciativos.

A professora relata a declaração de uma aluna: “A diretora falou que eu ameacei, mas não ameacei a menina. Ela pensa que pode ficar me chamando de ‘cabelo de bombril’. É ela quem tem cabelo esticado à força! Ela que me aguarde! Eu não tenho medo do irmão dela, não! O meu primo também é de gangue. Foi até preso!” Observa-se, aqui, as frequentes ameaças de alunos para com seus colegas, invocando o nome de irmãos e outros parentes, ligados, geralmente, ao tráfico de drogas, temidos pelo grupo. “O status de um aluno é medido, na escola, pelo grau de parentesco que possa ter com os traficantes de drogas”, ressalta Sinara.

Observou-se também um mea culpa protagonizado pelos pais ou responsáveis por alunos problemáticos, o que parece comprovar a observação feita pela coordenadora da Célula de Mediação da SME [Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza], Joelma Gomes, acerca do problema da negligência familiar como fator gerador de problemas na escola. Eis o relato de uma mãe tomado por Sinara: “Os casos que eu conheço, é mãe que não acompanha os filhos, gosta de vexame na rua, então, a criança vai vendo tudo aquilo e vai absorvendo, e acha normal e vai fazendo. É uma explicação até horrível”.

O comportamento agressivo de muitos alunos, com efeito, afirma a professora, pode estar relacionado à convivência com seus familiares, inclusive muitos [alunos] são vitimados em seus próprios lares. Os pais/responsáveis destacaram na pesquisa a reprodução da violência familiar no ambiente da escola, reconhecendo-o como um complicador para o trabalho dos educadores. Nesse sentido, retorna-se a preocupação com a fragilidade da estrutura familiar. Como sugestão, segundo Sinara, poderia haver um maior fortalecimento da articulação entre a instituição [escola] e a família.

Apesar dos desafios colocados, a aplicação da técnica da Mediação nessas escolas apresentou resultados muito favoráveis nos estudos da professora da Unilab. “Os alunos relataram que a escola mudou significativamente com a mediação”. Por exemplo, como aponta o relato de um aluno: “Antes, não podíamos nem reclamar, mandavam logo a gente para a direção. Agora, temos colegas que falam por nós. A gente não tem medo de reclamar. É muito importante ver os alunos participando do recreio e se preocupando com a violência”. No que diz respeito ao relato dos professores, foi unânime a compreensão de que a estratégia da mediação representa uma importante ferramenta para o trabalho sobre as questões da violência.

“Os pais/responsáveis relataram que o ambiente escolar parece outro”. Sinara reproduz o diálogo com uma mãe: “Acho lindo quando os meninos estão fazendo mediação. Eu só via era menino aqui indo embora porque fez isso, fez aquilo. O que resolve? Os meninos têm que ficar e aprender é aqui. A rua não tem nada pra ensinar, e aqui, meu Deus, nós precisamos é de paz”. Aliás, a partir dos relatos tomados na pesquisa, observou-se a necessidade das famílias participarem mais das atividades da escola. A ideia de que os pais só devem ser chamados quando o aluno dá problema parece estar ultrapassada.

Por fim, Sinara Mota afirma que, apesar dos resultados favoráveis observados em suas pesquisas, ainda não há um esforço para implantar o processo de Mediação Escolar como política de Estado no Brasil. A professora comenta que se trata de uma mudança de paradigma, de uma sociedade hoje baseada na imposição para uma baseada no diálogo, e mudanças estruturais como esta, sempre demandam certo tempo.

BOTAO AVALIE

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