Entrevista| Escritor Ondjaki conta sobre sua escrita, influências e relação com a Língua Portuguesa

Escritor angolano Ondjaki participou do I Festival das Culturas da Unilab. Foto: Assecom/Unilab.

O escritor angolano Ondjaki participou do I Festival das Culturas da Unilab, entre 19 e 22 de julho, e concedeu entrevista em que fala de sua obra, influências e relação com a Língua Portuguesa. Prosador e poeta, Ondjaki ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura em 2010, na categoria juvenil, pelo romance Avó dezanove e o segredo do soviético, e o Prémio Literário José Saramago, com o romance Os transparentes.

Escreve ainda para cinema e co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (“Oxalá cresçam pitangas – histórias de luanda”, 2006). Ondjaki teve alguns livros traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e polonês.

Unilab – Pode-se dizer que há um tema central na sua obra? Qual seria, você tem essa definição?

Ondjaki – Não. Eu penso que não tenha um tema central. Não gosto de dizer “a minha obra”, parece que é uma vasta obra, mas já tem alguns livros que são diferentes de outros, eu trabalho com romances, trabalho com contos e também trabalho com alguns livros infantis, então dificilmente o tema seria o mesmo. Há um pequeno grupo de livros cujo tema é Luanda e os anos 80. Mas tirando isso, não. Eu gosto de trabalhar com pessoas, não necessariamente pessoas angolanas, então, o tema da minha obra, se houver um tema, são as pessoas. Penso que trabalho com assuntos diferentes, em obras diferentes e em gêneros diferentes. olhos

Unilab – Como surgiu a escrita na sua vida?

Ondjaki – Eu penso que na realidade a escrita tem a ver com a paixão pela escrita, isto é, a escrita não tem só a ver com o facto de publicar livros.  Há pessoas que são poetas e não escrevem livros. Se você observar um jardim feito por um jardineiro muito dedicado, esse jardim é um poema, só que não é um poema escrito. A escrita começou talvez na escola, com as redações. Eu gostava muito de fazer redações. A disciplina que eu mais gostava era Língua Portuguesa e gostava muito das minhas professoras de Língua Portuguesa. Então, eu acho que eu fiquei muito apaixonado, muito cedo, pela Língua Portuguesa, e depois eu vi que a Língua Portuguesa, de certa maneira, também estava apaixonada por mim, e então ficou a minha namorada, uma das minhas namoradas é a Língua Portuguesa. Eu comecei a escrever para mim – contos, poesia, aos 15, 16 anos. A publicar foi mais tarde. Mas escrever, a escrita pelos diários, pela poesia, muito má, muito ruim, no princípio, mas faz parte, poesia quando a pessoa começa, não tinha muito treino, mas eu acho que aos 16, 17 anos, talvez.

Unilab – Quais foram suas influências?

Ondjaki – Eu lia muita coisa. E nessa altura, no início, eu gostava muito de ler poesia. Eu não gosto muito de dizer quais são os autores que me influenciam no sentido de que isso vai mudando. Um autor muito importante para mim aos 17 anos não é a mesma coisa que um autor aos 32 ou aos 27, mas eu gostava muito de ler poesia, ainda gosto, a poesia é muito importante na minha vida, mas há autores que nos marcam. De Angola, estou-me a lembrar de Manuel Rui; de Moçambique, estou-me a lembrar do Luís Bernardo Honwana; de Portugal, Sophia de Mello Breyner, são poetas, né; do Brasil, Manuel de Barros, Guimarães (Rosa), Clarice (Lispector), Graciliano (Ramos), Érico Veríssimo, são autores que a gente vai acumulando; de Espanha, Cervantes, Cortázar, Borges, García Marquez, nunca mais acabam os autores, porque a vida vai decorrendo e livros são como sonhos: ora sonhamos um sonho e amanhã sonhamos um sonho diferente. O que é preciso é deixar o sonho entrar na nossa vida, que é a mesma coisa que dizer que é preciso deixar os livros invadirem a nossa vida.

olhosUnilab – Percebe-se que você é um escritor em trânsito, entre a África e o Brasil. Como essa vivência pode ter mexido com a sua sensibilidade, pode interferir na sua escrita?

Ondjaki – Eu sou uma pessoa que gosto de viajar. Não sei se sou viciado em viagem, mas gosto de viajar. Acho que cada viagem aumenta o ser humano. E uma viagem não é só chegar a um outro país; uma viagem não é só visitar Redenção ou Uruguaiana ou Manaus, não. Eu acho que há uma viagem também pela cultura dos outros, mais importante para mim quando chego a um outro país, seja o Brasil, seja o Senegal, é quem são as pessoas desse país, como é que se relacionam umas com as outras, como é que se relacionam com os seus sonhos, como é que se relacionam com o seu passado? Nesse sentido, eu sou uma pessoa em trânsito. É óbvio que eu nasci em Angola, estudei em Portugal e estou há uns anos a residir no Brasil. Tenho um conhecimento destas três realidades, um conhecimento mínimo, o Brasil é um país continental, mas, claro, acho que isso só aumenta – enquanto ser humano, não enquanto escritor -, as viagens aumentam uma pessoa.

Unilab – Em seu seminário no I Festival das Culturas da Unilab, uma estudante perguntou em que língua escrever. Por que você escolheu escrever em Português, dentre as outras línguas?

Ondjaki – Eu escrevo em Português porque é a minha língua materna e a minha língua do coração, é a língua do meu afeto, é a língua onde eu posso traduzir os meus sonhos, a escrita é também a tradução dos sonhos, dos medos, obsessões e desejos. Não posso traduzir os meus sonhos em outra língua. Só posso traduzir numa língua que eu chamo “língua desportuguesa”, porque é a Língua Portuguesa, mas com influência das modalidades, do ritmo, da loucura que é a Língua Portuguesa de Angola. Então, eu acho que é isso. Eu não poderia escrever em outra língua. olhosNão domino outra língua suficientemente para escrever. Às vezes eu escrevo em manuelês. Manuelês é uma língua inventada pelo Manuel de Barros, mas é uma língua emprestada, porque manuelês é uma língua do Manuel de Barros. Mas é uma língua que de vez em quando invade outras pessoas: Fabrício Carpinejar, Paulinha Assunção, Ana Paula Tavares, são escritores que às vezes são invadidos pelo manuelês e a gente tem que permitir o manuelês entrar, porque o manuelês é uma língua mágica. Os pássaros também falam manuelês, as pedras, os sapos, os rios, os lagartos, as moscas e a curva dos rios, tudo isso são entidades que falam manuelês. O manuelês serve para aproximar as pessoas dos bichos.

BOTAO-AVALIE

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