Resistência e literaturas africanas norteiam debate com o escritor Ondjaki e a pesquisadora Rita Chaves

Da esquerda para a direita: Sueli Saraiva, Ondjaki e Rita Chaves.

Da esquerda para a direita: Sueli Saraiva, Ondjaki e Rita Chaves.

A programação da II Semana Internacional de Letras da Unilab e da “Bienal fora da Bienal” segue recheada de discussões proveitosas sobre literatura, ensino de Letras e interfaces sociais. Na tarde desta quarta-feira (19), o público pôde conferir o debate “A resistência da palavra nas literaturas africanas de língua portuguesa”, com a professora e pesquisadora Rita Chaves, da Universidade de São Paulo (USP), e o escritor angolano Ondjaki, tendo como mediadora a professora da Unilab, Sueli Saraiva.

Rita Chaves iniciou o debate citando o historiador Alfredo Bosi, para quem o Ser e o Tempo na poesia teriam o poder de nomear e, assim, dar formar às coisas. Com este mote, a professora argumentou que não é possível estabelecer quem vem primeiro, a coisa ou a palavra, uma vez que há uma relação intrínseca entre as duas, e reforçou que o homem é quem tem esse poder de nomear. A partir daí, introduziu a discussão sobre uma visão de África eurocêntrica, uma África nomeada a partir do espanto negativo dos europeus, seja retratando o continente africano como catálogo de turismo ou lugar de guerras, doenças e mortes.

“A literatura africana acaba sendo uma nova possibilidade, para os povos africanos, de nomear as coisas. Assim, o projeto de literatura angolana começa no final do século XIX e se efetiva em 1940, com a ideia da libertação do país. Não dá para falar de literatura em Angola sem falar na palavra resistência. A resistência é uma espécie de carimbo na literatura angolana, é a espinha dorsal, mesmo os países já sendo independentes”, sublinha. Entre as formas de realizar essa resistência via literatura, Rita cita a escolha das palavras, o uso proposital de nomes africanos com outra simbologia, fosse para tratar de mocidade, campo, guerra ou relações amorosas.

Ondjaki norteou sua intervenção entendendo a palavra enquanto lugar nas culturas africanas.

Ondjaki norteou sua intervenção entendendo a palavra enquanto lugar nas culturas africanas.

Ondjaki norteou sua intervenção entendendo a palavra enquanto lugar nas culturas africanas. “A palavra do mais velho é vista como algo valioso; ele não vai falar à toa, mas tem a palavra como pista do comportamento para o mais novo”, lembra. Em um contexto marcado pelo marxismo-leninismo em Luanda, na década de 1980, dizia-se “A caneta é a arma do pioneiro”, e aqui o escritor chama a atenção para o fato de que, mesmo nesta frase tão ligada ao pensamento e ação socialistas, ainda se pode ficar com o sentido de que a palavra tem o poder mais incisivo e subjetivo, “de longo alcance”, define.

Após a independência, Angola tinha novas palavras para uma nova ordem política. Era sintomático que “homens de palavra”, ou seja, da literatura, ocupassem ali a esfera política. Ondjaki traçou um panorama do que vem ocorrendo de movimentos angolanos ainda em torno da potência da palavra, citando rap, hip hop e kuduro, a despeito de vertentes comerciais. “Negar a palavra é quebrar o espaço possível de encantamento, de diálogo e partilha, de sonhos”, concluiu.

Vasta programação

Simultaneamente ocorreu, na estação de Acarape/CE, o encontro do escritor Tony Tcheka com os estudantes guineenses. Atualmente, Tcheka é considerado um nome de referência da literatura de Guiné-Bissau.

Logo após o debate entre Ondjaki e a professora Rita Chaves, houve palestra com a escritora moçambicana Paulina Chiziane, com o tema “Mulheres, Literatura e Resistência”, mediada por Luana Antunes.

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