Escrito nas versões português e crioulo guineense, TCC aborda excisão feminina

Com o título “A excisão feminina na etnia mandinga da Guiné-Bissau: tradição étnica ou obrigação da religião muçulmana?”, o estudante Salifo Danfa apresentou o Trabalho de Conclusão de Curso do Bacharelado em Humanidades (BHU) produzido em dois idiomas. Aluno do Campus dos Malês, em São Francisco do Conde/BA, Salifo elaborou a pesquisa nas versões português e crioulo guineense, sob o título “Fanadu di mindjer na rasa mandinga di Guine-Bissau: I tradison di rasa o i obrigason di religion musulmanu?”. O objetivo foi valorizar a língua e “mostrar aos irmãos que podemos escrever ciência em guineense”, explica o estudante.

A pesquisa aborda o pertencimento da excisão feminina, questionando se ela seria uma obrigação da religião muçulmana ou um costume tradicional de alguns grupos étnicos de Guiné-Bissau. O estudante aponta que a resposta pode indicar que a prática não tem nada a ver com os princípios da religião muçulmana. A respeito da iniciativa em produzir o trabalho nas duas línguas, Salifo explica que a ideia partiu do orientador, o professor Paulo Sérgio de Proença. “Ele me disse para fazermos a tradução de todo o trabalho em guineense, tendo em conta que é a língua que a maioria dos guineenses falam e entendem melhor”, explicou o aluno. “Isso deve aumentar a autoestima do nosso povo”, completou.

As dificuldades em escrever o trabalho em dois idiomas foram as mesmas existentes na tradução de qualquer língua, como a falta de correspondência de sentido entre as palavras. Isso inviabiliza a tradução literal, mas foi tomado como uma desafio – traduzir as ideias para as estruturas linguísticas e culturais do crioulo guineense.

“A iniciativa promove a integração de saberes entre as nações que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)”, explica o orientador da pesquisa. O professor Paulo Sérgio acrescenta, “Na Guiné-Bissau, há atualmente movimentos para a adoção do crioulo (também chamado guineense, para afirmar a nacionalidade) como língua oficial, ao lado do português. O guineense já é língua nacional, mas ainda não é oficial”.

Para orientador e aluno, a apresentação do trabalho em português e crioulo guineense foi um exercício linguístico e teórico. “A tradução não poderia simplesmente valorizar o superstrato português, pois o objetivo era produzir o texto para que um guineense não universitário também pudesse compreender”, declarou o professor Paulo Sérgio. O objetivo foi construir uma peça que refletisse o jeito guineense de pensar e falar. Além disso, houve a intenção de reforçar a língua guineense como veículo de conhecimento.

O próximo passo acadêmico de Salifo é cursar a terminalidade de História ou Ciências Sociais, dando continuidade à pesquisa.

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