Mesa reúne debates sobre bioeconomia, agricultura familiar e relações de gênero no meio rural

Para dar início às discussões da I Mostra Interterritorial Científica e Tecnológica da Bahia, a Mesa “Bioeconomia e agricultura familiar na Bahia” abordou pontos importantes ao tema. A atividade foi realizada na tarde da segunda-feira (27) e reuniu quatro debatedores, sob a moderação da Profa. Ana Cláudia Souza, docente da Unilab.

A agricultura familiar é responsável por mais de 70% dos alimentos da Bahia, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Estado (SDR) apontados pelo debatedor Gilmar Santos, doutor em Engenharia da Produção e pesquisador em Bionergia e Bioeconomia do Centro Nacional de Pesquisa em Mandioca e Fruticultura da Embrapa. Diante desse alto índice, é urgente a necessidade de abordar a agricultura familiar e as comunidades tradicionais de forma que sejam potencializadas com o conceito da bioeconomia.

Mas, afinal, o que é bioeconomia? Ela se caracteriza como a produção sustentável (do ponto de vista ambiental, econômico e social) de alimentos, bioprodutos, biofibras, biomateriais e bioenergia, a partir de recursos biológicos. Para Gilmar, “o futuro é Bio…”. O foco é em uma agricultura mais moderna, com agregação de valor, de forma que agropecuária e agricultura familiar passem a ser entendidas como bioeconomia. De produtos alimentícios a cosméticos, passando por combustíveis e outros produtos, a biomassa é o que há de comum entre eles. Esse recurso vem majoritariamente do campo, da agropecuária e da biodiversidade, que é onde se inserem a agricultura familiar e as comunidades tradicionais.

Na Bahia, são quase 600 mil agricultores e 1,5 milhão de empregos na área. De acordo com a SDR, são R$ 5,2 bilhões gerados por essa agricultura para a economia baiana, o que fomenta a importância da reinvenção da área. Para isso, Gilmar convida ao desafio de construção de um Plano Nacional de Bioeconomia, com metas, governança e recursos assegurados.

A importância da agricultura familiar também foi destacada pela diretora-presidente da União das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária da Bahia (Unicafes), Regina Dantas. “Para que a produção tenha qualidade e quantidade se faz necessário que ela [agricultura familiar] use as tecnologias de forma correta, sem destruir a natureza”, defendeu.

Como proposta, a representante da Unicafes sugeriu levar o conhecimento da bioeconomia às bases de agricultores e agricultoras familiares e das cooperativas, por meio de parcerias, seminários e produção de conteúdos audiovisual.

Um outro olhar sobre a bioeconomia, a partir da economia solidária, foi apresentado por Anne Sena, presidente da Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários (Unisol Bahia) e diretora da Unisol Brasil. De acordo com ela, “a economia solidária visa garantir o debate de um modelo de desenvolvimento onde a gestão coletiva do trabalho representa a garantia de práticas emancipadoras”.

Anne Sena, que também é economista, falou sobre a importância de pensar os diversos formatos produtivos e a invisibilidade da classe trabalhadora. Além disso, “não dá para pensar em um projeto de desenvolvimento sustentável sem garantir uma gestão nacional justa acerca do uso dos recursos naturais e tecnológicos. Para nós, essa tecnologia não pode ser vista como instrumento de substituição das práticas de regulamentação das relações sociais e sim, das dinâmicas de facilitação e consolidação de produções mais equilibradas e sustentáveis, com vista à sociedade do bem viver”, acrescentou a presidente da Unisol Bahia. 

E o equilíbrio passa por um vasto leque de desafios, que inclui lidar com as mudanças climáticas, esgotamento dos recursos naturais, políticas públicas e produção com precarização, entre outros, além de pensar novos modelos organizacionais.

Expandindo a discussão, a Profa. Juliana Bueno, docente da Unilab Bahia e doutora em Sociologia, incluiu na pauta a discussão sobre relações de gênero no meio rural e a relação étnico-racial. “Homens e mulheres vivenciam as experiências no rural da mesma maneira? E brancos e negros?”, questionou a cientista social.

Para responder a tais questões, Juliana partiu da contextualização histórica sobre o acesso e concentração de terras e o embranquecimento da nação com a concessão de terras a grupos de imigrantes europeus. Na sequência, apresentou o conceito de interseccionalidade, importante ao tema.

O conceito contempla as inter-relações de raça, gênero e classe. O conceito de interseccionalidade e suas ferramentas ajudam a pensar a diversidade de experiências no rural. Em relação ao gênero, a docente partilha que há um grande número de mulheres que interrompem a trajetória do trabalho rural após o casamento e filhos. Ela explica que isso muito se deve à sobrecarga de trabalho do cuidado doméstico e emocional, que deriva da construção social de que as mulheres são naturalmente mais habilidosas e cuidadosas, quando na verdade há uma educação para isso.

“O trabalho feminino no campo muitas vezes é tido como uma ajuda, não sendo remunerado porque esse trabalho é visto como algo menor”, pontuou Juliana. Ela acrescentou, ainda, a posição de liderança feminina nem sempre respeitada e a dificuldade de transporte e ausência de escolas e creches para as crianças, dificultando a rotina das mulheres.

“Quando pensamos em bioeconomia e agricultura familiar pensamos nas relações de gênero? Quando pensamos nas tecnologias, políticas públicas e os financiamentos voltados à bioeconomia e agricultura familiar nós temos esse olhar da noção de gênero? São pensadas as formas de superar as desigualdades entre homens e mulheres, em especial no meio rural?”, provocou a cientista social Juliana.

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